Mahabadra: a história que o palco não conta - Por Halima Saat


    É possível dançar por lazer (sem compromisso de forma passiva), por paixão (com dedicação aos estudos de forma ativa) ou por profissão (vocação de vida). No primeiro não existe intenção de se aprofundar, apenas de se divertir, por exemplo numa aula convencional ou mesmo esporádica de dança. No segundo existe intenção de evolução, investimento e dedicação, mas a dança não é sua principal fonte de renda ou mesmo uma fonte de renda. Pode acontecer tanto numa turma regular como numa cia, por exemplo. No terceiro a pessoa respira dança e vive dela, ela investe tempo, energia e dinheiro para trabalhar nessa área.

    Entendo que em linhas gerais, cias de dança são constituídas por bailarinos(as) profissionais. Entretanto acredito que pessoas apaixonadas pela dança também podem fazer parte de uma cia, havendo dedicação e disponibilidade para isso. Claro que o tempo de absorção do conteúdo precisa ser maior nesse caso, principalmente quando os ensaios possuem tempo reduzido na semana…

    Quando criei a Mahabadra (maha = grande e badra = lua cheia) éramos poucas integrantes, aprendi o básico de costura para que a gente pudesse confeccionar os acessórios e figurinos (o que foi terapêutico em época de pandemia), mas isso me custou um tempo considerável e me vi mergulhada neste universo de criação coreográfica, estudos remotos com professores da área e um alto investimento financeiro. 

    Eu nunca visei viver de dança, apesar da intenção de me profissionalizar. Isso me levou para uma reflexão profunda sobre minha própria vida porque acabei me sobrecarregando para dar conta do que me dava sustento e do que eu amava, que é dançar. Os processos criativos por vezes não me deixavam dormir, eu anotava, gravava o que vinha na minha cabeça… Mergulhei em vários cursos para adquirir bagagem até que enfim botei o pé no freio.

    Minha saúde pesou e tive que desacelerar. Tive que refletir sobre o caminho que estava trilhando e sobre o caminho da Mahabadra. Porque aqui começaram a surgir questões éticas e sociais que geraram atritos e uma rotatividade de bailarinas dentro da cia. Administrar tudo sozinha já não era mais uma opção saudável para mim. 

    Então aprendi a enxergar que uma cia vai muito além de ensinar/aprender técnica e apresentar uma performance coletiva. Existem pessoas ali. Pessoas com mais dificuldade de assimilar os movimentos, pessoas com limitações físicas, pessoas que não conseguem ser autodidatas e precisam de alguém do lado dando assistência, pessoas que estão numa fase de muitos compromissos e só podem se dedicar o mínimo dentro da cia, e assim vai. 

    Mas você poderia indagar: por que não fazer um filtro? Deixar apenas quem tem mais facilidade de aprendizado e disponibilidade para se apresentar? E a resposta é simples, se eu fizesse isso, não haveria um coletivo humanizado. Porque as pessoas adoecem, trabalham, viajam, tem uma família para cuidar. Se eu fizesse esse filtro eu mesma não poderia participar da cia porque não vivo de dança e na época de sua criação ainda me considerava amadora, não fazendo sentido querer apenas bailarinas profissionais. 

    Daí você poderia me dizer: ter uma cia de pessoas apaixonadas por dança mas com algumas que não conseguem ter disciplina para estudar e fixar os movimentos gera um estresse desnecessário. Não seria mais fácil você Halima ter se profissionalizado sem uma cia para depois formar uma cia com bailarina profissionais que aprendem rápido e tem essa disciplina?

    Eu poderia realmente. Mas escolhi outro caminho. Um caminho em que a auto superação e a evolução de cada integrante se tornam mais gratificantes para mim do que simplesmente apresentar num palco uma criação coreográfica de minha autoria. Um caminho de construção colaborativa em que a identidade de uma cia é criada coletivamente, até porque seria bem difícil encontrar meios para pagar bailarinas profissionais e até mesmo encontrá-las nesse ramo específico das danças orientais e fusões em Natal/RN.

    Mas de fato a criação de um regulamento básico com regras de convivência, de frequência e de avaliação técnica se fez necessária diante de alguns episódios de atrito e estresse, inerentes a qualquer grupo artístico. Porque pessoas também se desentendem e falham como eu falhei diversas vezes por não saber lidar da melhor forma em contextos diversos. Todavia esses percalços nos fortaleceram e os vínculos que criamos vão além do coleguismo dentro da cia. É sobre irmandade, apoio mútuo no dia-a-dia, uma segunda família. 

    Dessa forma, nossos encontros passaram a fluir dentro do que cada uma podia entregar. Porém agora com um ritmo mais lento e agendas mais espaçadas. Não é fácil ter que gerenciar um grupo com mentalidades tão diferentes, pessoas com experiências de vida diversas, corpos que guardam memórias únicas dentro da sua expressividade e forma de se comunicar no mundo. Mas ao mesmo tempo é lindo de se ver todas dançando no palco tendo superado a si mesmas, depois de muito treino, sacrifícios e entrega. 

    É lindo de se ver cada pequeno avanço delas nos ensaios, a cooperação, a amizade se consolidando e a possibilidade de levar arte e cultura para a população de forma lúdica e bela através de projetos, sejam eles fomentados pelo governo ou de forma privada. Acredito que temos muito caminho ainda para trilhar e entendo que nesse percurso algumas saem e outras entram, mas todas deixam sua contribuição na formação da identidade desse coletivo e isso também é algo muito emocionante de se ver. 

    Sou grata por vivenciar tudo isso dentro da grande lua cheia (arquétipo da mãe) que é a Mahabadra. ❤️

Comentários

  1. Excelente reflexão!
    Ajustar as demandas da vida com sonhos, paixões e projetos não é tarefa fácil, sobretudo se os recursos vêem de outra fonte de renda, assim como gerir as relações nos diferentes meios aos quais estamos inseridos é um grande desafio.

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